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Nós enxergamos nos outros as mesmas falhas que os outros apontam em nós

Todos se julgam acima de tudo que é errado, que não fazem parte deste contexto, que não concordam com o que aí está

19 de junho de 2022, às 12:00 | Douglas Cordeiro

A proximidade de mais um período eleitoral, com uma pandemia, crise econômica, guerra e tantos outros fatores que certamente passaríamos muito tempo descrevendo, é uma oportunidade de entender o conceito de cidadania. Uma compreensão necessária que precede o ato de votar.

Digitar suas escolhas na urna eletrônica é o fim de um processo e não um ato isolado. Refletir sobre a nossa realidade e sobre nós mesmos é uma espécie de preparação, um ritual necessário para o grande momento, o ato final, o voto.

Nos últimos dias, voltei a ler algumas obras do professor Eduardo Giannetti da Fonseca, filósofo e economista, um dos principais pensadores da atualidade, que cunhou o termo “o paradoxo do brasileiro”.

Como um especialista em observar a nossa realidade, Eduardo Giannetti faz uma provocação que nos permite enxergar como não nos reconhecemos na sociedade que vivemos.

Ele exemplifica dizendo que desde o brasileiro com baixa escolaridade até o mais graduado, quando questionado sobre todos os problemas que enfrentamos atualmente, ninguém se identifica com o que acontece ao nosso redor. Todos se julgam acima de tudo que é errado, má gestão, desigualdades, corrupção, fome, desemprego, nenhum de nós assume que faz parte deste contexto, ao contrário, afirmam que não compactuam com nada do que aí está, estão acima das mazelas nacionais, desde as regras mais básicas de convivência até situações mais graves que afetam milhões de brasileiros. A culpa é do brasileiro, mas brasileiro é o outro.

Esta miopia social nos impede de fazer o certo, compreender que todos nós somos exatamente o Brasil que vivemos, o resultado de tudo que o país enfrenta hoje. Parece difícil de entender, mas não é. A mudança mais ampla, que transforme políticos e partidos, que os obrigue a desenvolver um projeto concreto de país, corrigindo as deficiências estruturais, realizando reformas, tendo a coragem de redirecionar suas ações para promover mais igualdade, entendendo a diferença entre o público e o privado, conectando-se com o cidadão, com espaço para questionamentos, tudo com transparência sem que reste qualquer dúvida sobre os reais objetivos de quem tem o poder, também depende de cada um de nós. Precisamos enxergar que a mudança que queremos começa com a nossa própria mudança.

Para deixar claro, Eduardo Giannetti cita o exemplo do impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Ele conta que ficou feliz ao acompanhar seus alunos nas manifestações, com caras pintadas, cobrando um Brasil novo. Dias depois, estes mesmo jovens, fazendo uma prova, colavam uns dos outros como se fosse uma prática comum, sem consequência.

“Como é possível que os mesmos jovens que cobram o fim da corrupção, pregam a retidão de caráter, obediência às leis, não praticarem os valores exaltados em seus discursos”, disse durante uma conferência.

Por fim, Giannetti faz uma afirmação preocupante, mas real.

“Com base na avaliação dos brasileiros sobre nosso país, o todo é menor que a soma das partes, ou seja, a conta que não fecha", finaliza.


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