Gabinetes fantasmas: Cerca de R$ 3,3 milhões torrados por deputados federais presos e foragidos
Câmara dos Deputados banca estruturas milionárias de parlamentares que não pisam no congresso há vários meses
- sábado, 18 de outubro de 2025
- Mateus Dias
A Câmara dos Deputados transformou-se numa máquina de desperdício que já devorou R$ 3,3 milhões para sustentar gabinetes de deputados presos, foragidos ou simplesmente ausentes do país. O escândalo, revelado em investigação detalhada, expõe como o dinheiro público continua sendo sugado por estruturas fantasmas que operam sem qualquer contrapartida de trabalho legislativo.
Três nomes protagonizam esse teatro do absurdo: Chiquinho Brazão (Sem Partido-RJ), cassado após um ano na prisão, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Carla Zambelli (PL-SP). Ambos os bolsonaristas estão impedidos pelo Supremo Tribunal Federal de receber salários, mas suas equipes continuam sendo bancadas integralmente pelos contribuintes brasileiros.
O rombo financeiro acontece enquanto o Congresso Nacional enfrenta sua pior crise de credibilidade em décadas, com a população questionando cada vez mais os privilégios e blindagens que protegem parlamentares de todas as consequências de seus atos.
SANGRIA MILIONÁRIA SEM CONTRAPARTIDA
Em menos de 24 meses, os três gabinetes consumiram uma fortuna que poderia financiar hospitais, escolas ou programas sociais. Chiquinho Brazão sozinho drenou R$ 1,9 milhão dos cofres públicos, enquanto Eduardo Bolsonaro custou R$ 900 mil e Carla Zambelli outros R$ 300 mil.
A estrutura mantida por cada um deles impressiona pela dimensão e pelo custo mensal:
- Zambelli comanda uma equipe de 12 assessores que devora R$ 103 mil mensais, mesmo com a deputada presa na Itália após condenação por invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça e perseguição armada a jornalista.
- Eduardo Bolsonaro sustenta nove servidores com R$ 132 mil por mês, enquanto permanece nos Estados Unidos articulando sanções contra o próprio país que deveria representar.
- Chiquinho Brazão mantinha 24 funcionários consumindo R$ 120 mil mensais até ser finalmente cassado por excesso de faltas, depois de um ano inteiro na cadeia.
JUSTIFICATIVAS BUROCRÁTICAS PARA O INDEFENSÁVEL
Mesmo com os parlamentares completamente ausentes de suas funções, as equipes continuam operando sob justificativas que beiram o surrealismo. A assessoria de Zambelli chegou ao cúmulo de afirmar que a deputada segue "desempenhando suas funções legislativas e administrativas" - isso enquanto ela cumpre pena de dez anos de prisão na Itália.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, permanece em território americano conspirando abertamente contra autoridades brasileiras e articulando junto ao presidente Donald Trump medidas punitivas contra o Brasil. Sua equipe, no entanto, continua sendo paga religiosamente para executar um trabalho parlamentar que simplesmente não existe.
REVOLTA NA BASE GOVERNISTA
A sangria financeira provocou indignação entre parlamentares que efetivamente trabalham. O vice-líder do governo, Alencar Santana (PT-SP), apresentou projeto específico para acabar com o "deputado home office" - aquele que mantém estrutura paga com dinheiro público enquanto vive no exterior.
"É completamente ilógico alguém ser eleito para exercer função na Câmara e permanecer em outro país. Deputados que não exercem o mandato plenamente não podem custar milhões aos cofres públicos", declarou Santana.
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), foi ainda mais direto ao classificar a situação como "um absurdo e um escárnio". Em vídeo publicado nas redes sociais, ele denunciou a existência de "um acordão para blindar os bolsonaristas".
"A Câmara já gastou R$ 3,3 milhões com deputados presos ou foragidos. Deveriam ser cassados imediatamente! Isso é um absurdo", disse Lindbergh, mirando especificamente em Eduardo Bolsonaro.
EDUARDO BOLSONARO: O CONSPIRADOR INTERNACIONAL
O caso de Eduardo Bolsonaro representa talvez o mais grave dos três. Enquanto sua equipe consome R$ 132 mil mensais, ele permanece nos Estados Unidos sendo investigado pela Procuradoria-Geral da República por articular sanções contra o Brasil e autoridades do STF.
"Eduardo está fora do país só conspirando contra o nosso Brasil. Que tipo de trabalho parlamentar ele está fazendo para ter uma equipe dessas?", questionou Lindbergh Farias, ecoando o sentimento de revolta que toma conta de setores do Congresso.
A permanência de Eduardo no exterior não é temporária nem justificada por agenda oficial. Trata-se de uma ausência prolongada dedicada exclusivamente a atividades que prejudicam os interesses nacionais, enquanto o contribuinte brasileiro financia sua estrutura parlamentar.
IMOBILISMO E ACORDÕES
A manutenção desses gabinetes fantasmas expõe o imobilismo crônico da Câmara dos Deputados, que até agora se recusou a tomar decisões definitivas sobre a cassação de Zambelli e Eduardo Bolsonaro. O próprio caso de Chiquinho Brazão ilustra essa paralisia institucional.
O Conselho de Ética chegou a aprovar a cassação do ex-deputado, acusado de participação no assassinato da vereadora Marielle Franco, mas o plenário jamais votou a questão. Ele acabou perdendo o mandato apenas em abril de 2025, por excesso de faltas - uma saída que evitou o constrangimento de um julgamento público.
PROCESSOS TRAVADOS E MANOBRAS
Os processos contra Zambelli e Eduardo Bolsonaro seguem deliberadamente emperrados. A Comissão de Constituição e Justiça ainda não julgou o pedido de cassação da deputada, enquanto o Conselho de Ética avalia o caso de Eduardo sob relatoria de Delegado Marcelo Freitas (União-MG), que já sinalizou pelo arquivamento.
Segundo Lindbergh Farias, existe um "acordão" na Câmara para que Eduardo perca o mandato por ausências em vez de enfrentar julgamento pelos colegas. Essa manobra permitiria que ele continue elegível para 2026, já que a cassação por faltas não gera inelegibilidade - diferentemente do que ocorreria com condenação no plenário.
O PREÇO DA BLINDAGEM
O escândalo dos gabinetes fantasmas representa mais que desperdício financeiro. Simboliza a blindagem institucional que protege parlamentares de todas as consequências de seus atos, mesmo quando estes incluem crimes graves ou conspiração contra o próprio país.
Enquanto milhões de brasileiros enfrentam dificuldades econômicas e serviços públicos sofrem com falta de recursos, a Câmara dos Deputados continua financiando estruturas que não produzem absolutamente nada para a sociedade.
A conta de R$ 3,3 milhões ainda está longe do fim. Enquanto os processos permanecerem travados e os acordões continuarem protegendo os envolvidos, o sangramento dos cofres públicos prosseguirá, alimentando uma máquina de privilégios que funciona às custas de quem realmente trabalha e paga impostos no Brasil.
Carla Zambelli e Eduardo Bolsonaro / FOTO: Igo Estrela - Metrópoles
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